SANTARÉM (PA) — 20 DE SETEMBRO DE 2026 — Ele cresceu sem conhecer o pai, foi criado pelos avós, viveu da pesca e da agricultura, vendeu doces e picolés, vigiou carros, limpou banheiros e enfrentou um câncer maligno. Segundo seu testemunho, os médicos chegaram a lhe dar apenas dois meses de vida. Renan sobreviveu. Anos depois, com um celular simples nas mãos, começou a mostrar os problemas de Santarém. O menino que lutou para continuar vivo se tornou jornalista e agora se prepara para receber reconhecimento internacional.
Existem histórias que começam com oportunidades. Outras começam com sonhos. A de Renan Rodrigues começou, sobretudo, com sobrevivência.
Antes mesmo de entender o significado das palavras abandono, pobreza, doença ou esperança, sua vida já estava cercada por dificuldades.
Renan nasceu em Santarém, no oeste do Pará, em uma família humilde. Segundo seu próprio relato, sua mãe engravidou durante uma juventude marcada por festas e não soube identificar quem era o pai biológico da criança.
Com medo e diante das circunstâncias que enfrentava naquele momento, ainda durante a gravidez teria decidido entregar o bebê para outra mulher após o nascimento. Renan nem havia chegado ao mundo e seu destino parecia já estar decidido. Mas a história tomaria outro rumo.
Uma tia mudou o primeiro capítulo de sua vida
Quando Renan nasceu no Hospital Municipal de Santarém, a mulher que deveria ficar com o bebê teria ido buscá-lo. Foi quando uma tia de Renan interveio. Ela foi atrás da criança e não permitiu que aquele bebê simplesmente desaparecesse da convivência da família.
Sem saber quem era seu pai biológico e vivendo em uma família com poucos recursos, Renan encontrou nos avós parte da estrutura familiar que precisava. Foram eles que ajudaram a criá-lo. E foi no interior que aquele menino conheceu uma realidade muito diferente daquela que, anos depois, encontraria diante das câmeras.
A pesca, a agricultura e uma infância difícil
Renan cresceu conhecendo de perto a vida de quem depende da terra e dos rios. Pesca e agricultura fizeram parte de sua formação.
Não havia luxo. Não existia caminho pronto. A família era humilde, e aquilo que chegava à mesa estava diretamente ligado ao esforço diário.
Sua vida escolar também não seguiu uma trajetória tranquila. Renan começava a estudar, enfrentava dificuldades, interrompia e depois tentava novamente. A infância, segundo seus relatos, foi marcada por momentos extremamente difíceis. Mas ainda viria uma notícia capaz de mudar completamente sua vida.
“Dois meses de vida”
Renan foi diagnosticado com um câncer maligno. Para uma família humilde, a notícia já seria devastadora. Mas o que veio depois foi ainda mais doloroso.
Segundo Renan, diante da gravidade de seu quadro, os médicos deram um prognóstico de aproximadamente dois meses de vida. De repente, aquele menino que já havia enfrentado tantas dificuldades passou a enfrentar algo muito maior: a possibilidade da própria morte.
Vieram tratamentos, sofrimento e dias em que ninguém sabia exatamente o que aconteceria. A família precisou enfrentar o medo. Renan precisou enfrentar a doença. E foi justamente nesse período que uma das características que marcariam sua vida ganhou ainda mais força: a fé.
Quando a medicina apontava limites, ele se agarrava à fé
Antes mesmo de enfrentar alguns dos momentos mais difíceis da doença, Renan havia conhecido a Igreja Adventista do Sétimo Dia. A fé em Deus passou a ocupar um espaço profundo em sua caminhada.
Quando as circunstâncias pareciam dizer que sua história estava chegando ao fim, ele continuou acreditando que ainda existiam páginas para serem escritas. Os dois meses passaram. E Renan continuava vivo. Vieram mais dias, depois meses, depois anos. O menino que ouviu um prognóstico tão grave sobreviveu.
A experiência jamais seria esquecida. Décadas depois, aquele período continuaria fazendo parte de seu testemunho. Mas sobreviver à doença não significava que a vida ficaria fácil. Era preciso trabalhar, estudar e construir alguma coisa praticamente do zero.
No Mercadão 2000, começava outra batalha
Quem hoje vê Renan Rodrigues diante de uma câmera talvez não imagine os trabalhos que vieram antes. No tradicional Mercadão 2000, em Santarém, Renan buscava maneiras de ganhar seu próprio dinheiro.
Vendeu picolé, chopinho e doces. Também vigiou e cuidou de carros. Fez aquilo que estava ao seu alcance para conseguir seguir adiante. Em outro momento de sua caminhada, trabalhou realizando serviços de limpeza. Varreu espaços e limpou banheiros.
Não era o trabalho dos sonhos. Mas existia um sonho por trás daquele trabalho. O dinheiro conquistado com esforço ajudava Renan a investir em conhecimento.
Ele fez cursos de informática básica e avançada e buscou formação técnica relacionada à comunicação e à manutenção de aparelhos celulares. Cada curso representava uma possibilidade de mudar de vida.
De trabalhador a empreendedor
Com o conhecimento adquirido, Renan abriu sua própria assistência técnica de celulares em Santarém. Aquele jovem que havia vendido doces e vigiado carros começava a empreender.
O celular se tornou ferramenta de trabalho. Mas, algum tempo depois, um aparelho também se tornaria a ferramenta responsável por mudar completamente sua trajetória profissional.
Renan olhava para Santarém e via problemas: ruas precisando de melhorias, moradores reclamando, dificuldades na saúde, comunidades pedindo atenção e serviços públicos que precisavam funcionar. Então começou a fazer algo muito simples: pegou um celular e começou a filmar.
Tudo começou com um celular simples
Não havia uma grande equipe, estrutura milionária ou estúdio sofisticado. Existia um celular e uma vontade de mostrar aquilo que estava acontecendo.
Renan começou fazendo pequenas gravações. Chegava aos locais, conversava com moradores, mostrava problemas e cobrava providências das autoridades. No começo, poderia parecer apenas mais uma pessoa filmando sua cidade. Até que algumas cobranças começaram a produzir resultados.
Problemas mostrados recebiam atenção. Moradores começaram a procurar Renan. Uma denúncia levava a outra. Uma reportagem simples abria caminho para a próxima. O celular que antes era apenas um aparelho começou a funcionar como microfone, câmera e instrumento de fiscalização popular.
Nascia o Blog do Renan Rodrigues
A atuação cresceu. Vieram reportagens, entrevistas, denúncias e coberturas. Renan passou a acompanhar de perto problemas enfrentados pela população e a cobrar respostas de prefeitos, vereadores, secretários e outras autoridades públicas.
A voz que começou pequena ganhou alcance. Santarém passou a conhecê-lo. Depois vieram outros municípios do oeste do Pará. As redes sociais ampliaram as fronteiras.
E desse trabalho surgiu e se fortaleceu o Blog do Renan Rodrigues — O Coração Pulsante do Pará.
A história daquele menino começava a ganhar um significado diferente. Ele sabia o que era precisar ser ouvido porque passou grande parte da própria vida enfrentando dificuldades. Agora, seu trabalho era justamente dar visibilidade às histórias e aos problemas de outras pessoas.
O trabalho de Renan Rodrigues pelas cidades do Pará
Os vídeos abaixo reúnem alguns momentos da atuação de Renan Rodrigues em reportagens, entrevistas e cobranças realizadas em Santarém, Uruará, Trairão, Rurópolis e em outras regiões do Pará.
O menino que quase não teve futuro começou a construir o seu
Renan passou a atuar como jornalista, blogueiro, apresentador e comunicador investigativo. O trabalho desenvolvido ao longo dos anos começou a receber reconhecimento.
Vieram homenagens por sua atuação na comunicação no Pará. Mas talvez nenhuma placa consiga explicar completamente o que existe por trás dessa caminhada.
Porque antes do comunicador existiu o menino: o menino que não conheceu o pai biológico; o menino criado pelos avós; o menino do interior; o menino que conheceu a pesca e a agricultura; o menino que teve dificuldades para estudar; o menino que enfrentou um câncer maligno; o menino que ouviu que poderia ter apenas dois meses de vida.
Também existiu o jovem que vendeu picolé, vendeu doces, vigiou carros, varreu, limpou banheiro, estudou quando conseguiu, aprendeu uma profissão, abriu uma assistência técnica e, um dia, pegou um celular simples para mostrar aquilo que muita gente não conseguia fazer chegar às autoridades.
De Santarém para o reconhecimento internacional
Agora, em 2026, essa caminhada chega a mais um momento simbólico. No dia 26 de setembro, Renan Rodrigues deverá estar em Macapá, no Amapá, para receber uma homenagem de caráter internacional pelo trabalho desenvolvido na comunicação.
Para muitos, será uma cerimônia. Para ele, representa uma vida inteira.
Quando receber a homenagem, simbolicamente não estará ali apenas o jornalista. Estará também o menino criado pelos avós, o garoto da pesca e da agricultura, o paciente que enfrentou o câncer, o vendedor de doces e de picolé, o vigia de carros, o trabalhador que limpou banheiros, o técnico de celular e o homem que começou filmando com aquilo que tinha nas mãos.
Uma história que não é apenas sobre jornalismo
A trajetória de Renan Rodrigues é também uma história sobre sobrevivência, trabalho, fé e recomeços. É sobre cair e continuar. É sobre começar com pouco. É sobre transformar dificuldade em combustível para tentar construir um caminho diferente.
E talvez exista uma imagem capaz de resumir tudo: um menino que um dia lutava para continuar vivo e um homem que hoje viaja para ser reconhecido pelo trabalho que construiu.
Entre esses dois momentos existem anos de sofrimento, trabalho e persistência. Por isso, quando Renan Rodrigues subir para receber sua homenagem, não será apenas mais uma premiação em sua trajetória profissional. Será também um encontro simbólico entre o homem de hoje e aquele menino de ontem.
O menino que talvez só pudesse perguntar: “Será que eu vou sobreviver?”
E que, tantos anos depois, pode olhar para trás e perceber: sobreviveu. Trabalhou. Recomeçou. Construiu sua história. E ainda tem muito para contar.
Renan Rodrigues. De Santarém, no coração da Amazônia, para além das fronteiras do Pará.
Uma história que começou cercada por incertezas, quase foi interrompida pela doença e continua sendo escrita todos os dias.



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